Em um vídeo short recentemente publicado no youtube, RODRIGO PIMENTEL, o conhecido analista de segurança pública, sociólogo, ex-policial militar e ex-integrante do BOPE, e ainda, escritor famoso pelo best-seller “A Elite da Tropa”, que se transformou em uma famosa série de cinema, disse o seguinte: https://youtube.com/shorts/ICISM4A8vpM?si=YxO2nvv86zRqZpTv
Lugar de bandido que rouba apartamento de pobre é na vala.
Essa declaração não partiu de um governador de direita, do Tarcísio, de São Paulo. Se partisse dele, ele estaria sendo acusado, agora, de estimular a violência policial, pela imprensa, pelo Ministério Publico e pelas ONG`s. Essa declaração partiu do prefeito eleito de Maricá, Washington Quaquá, que por ser membro do PT, essa declaração vai passar totalmente despercebida. Ninguém vai falar nada. Mas eu vou te explicar as circunstâncias que levaram o prefeito a dar esta declaração polêmica.
O prefeito Quaquá é um prefeito eleito pela terceira vez, muito preocupado com o “social”. A cidade de Maricá, com duzentos mil habitantes, tem excelentes indicadores sociais; oferece serviço de transporte coletivo gratuito, oferece quinze mil bolsas de estudo para nível técnico e superior, para jovens da cidade, oferece expansão habitacional com projetos habitacionais sérios, oferece complemento salarial a mais de quarenta mil pessoas, com “moeda local”. Então, é um belo exemplo a ser seguido.No entanto, de alguns meses para cá, o Comando Vermelho resolveu invadir a cidade. O Comando Vermelho não quer vender maconha e cocaína; não é nada disso. Ele quer roubar apartamentos do [programa habitacional] `Minha Casa, Minha Vida` e cobrar alugueis de pessoas pobres.
É evidente que o prefeito está conectado com a população. O prefeito não está no Olimpo, em Brasília. Ele percebe o que está acontecendo. Ele percebe que as soluções devem ser enérgicas e rápidas. Por este motivo ele pediu ajuda ao BOPE [Batalhão de Operações Especiais da PM do RJ]. Ele não foi pedir ajuda ao Ministério da Justiça. O Ministério da Justiça iria oferecer armas não-letais, certamente. O prefeito fez muito mais do que isso, muito mais do que uma declaração. Ele firmou um acordo com o Governo do Estado [envolvendo] troca de informações de inteligência, [...] de troca de imagens de centro de operações, [...] complementar o salário dos policiais militares, extra, que trabalham na folga. Com tudo isso, maricá, hoje, está com a menor taxa de homicídios dos últimos vinte anos, apesar do crescimento populacional.
O prefeito Quaquá, que eu não conheço pessoalmente, [...], está fazendo aquilo que muitos prefeitos no Brasil deveriam fazer: trazer para si as responsabilidades pela segurança pública. Eles conhecem o que o povo, lá na ponta [da sociedade] está sofrendo. O prefeito Quaquá não admite uma barricada na sua cidade.
Então, eu acho um belo exemplo a ser seguido, viu! Eu gostaria muito que as prefeituras do Brasil Pensassem dessa forma. Seria muito melhor para o cidadão, lá na ponta, porque Brasília não consegue enxergar nada disso.
Em um país imenso, como é
o Brasil, esperar que o governo federal resolva as situações problemáticas das
cidades equivale a alimentar uma grande fantasia.
Políticos realmente
interessados em promover o bem-comum jamais se preocupam com as suas posições
ideológicas; eles são pragmáticos, pois colocam o bem das suas comunidades
acima de qualquer outro interesse.
No caso relatado no vídeo
observamos alguns aspectos importantíssimos:
1) A autoridade local,
entendendo que qualquer solução vinda do governo federal demoraria demais,
busca-as dentro do seu círculo de possibilidades e dos recursos e meios que
dispõe. Neste caso, o prefeito agiu no sentido localista.
2) A ação do prefeito realçou a necessidade da responsabilidade das autoridades locais. Ele não ficou esperando por soluções que não viriam e assumiu a responsabilidade que é sua e da sua comunidade. Em vez de largar toda a carga sobre o governo do estado, ele deu uma contribuição efetiva para que o policiamento ostensivo e repressivo desse segurança para a população mais pobre, a que estava sendo atingida diretamente. Com isso, ele mostrou que todo beneficio tem um custo, que todo bônus tem um ônus, que não existe bem-estar gratuito, o que lentamente pode modificar as disposições politicas das pessoas em torno de ideias como o federalismo pleno, a soberania popular, o poder local, somente para citar algumas.
3) Com seus atos, ele
condenou e atacou os criminosos; dessa forma ele transmitiu um sinal claríssimo
de que a moralidade é um valor primordial, de que não haveria leniência com a
criminalidade. Esses sinais, juntamente com outras ações que despertem a responsabilidade
dos cidadãos e fortaleçam o poder da população local, tem um alto potencial
educativo e formador de comunidades locais resilientes.
4) A solicitação de ajuda
ao governo do estado, e a oferta de compartilhamento de ações e recursos entre
o governo municipal e o estadual, mostra que aos poucos, o ranço centralista e
estatista começa a ceder. O ato do prefeito manifesta um princípio importantíssimo
para a renovação do estado federal brasileiro, o de subsidiariedade. Este
princípio diz que as autoridades mais abrangentes, como neste caso é o governo
do estado do RJ, somente devem intervir em um ente político ou civil menos
abrangente, como é o caso do Município de Maricá, quando estes estiverem incapacitados para o exercicio das suas fun;cões. Isto é, a intervenção deve ocorrer
somente quando o ente menos abrangente não disponha de capacidades de realizar
por si mesmo aquilo que se apresenta como necessário. Portanto, a intervenção
deve durar somente o tempo suficiente para que o ente inferior recobre as
próprias capacidades de atuação, devendo o ente superior afastar-se novamente.
A ajuda deve ser temporária. No caso relatado por Rodrigo Pimentel, observamos
que a ajuda consistiu em uma complementação de força policial, e cooperação na
troca de informações de inteligência.
Contudo, indo além do que expressa o princípio de subsidiariedade, porque não está expresso nas formulações originais, a “intervenção” começou pelo pedido de ajuda feito pelo prefeito, ou seja, não houve uma ação impositiva do governo do estado.
Defendemos que o
princípio de subsidiariedade seja inscrito na Constituição Federal, porém,
estabelecendo que as intervenções devem primeiramente partir das próprias
autoridades locais, porque dessa forma se preservará a autonomia local, neste
caso, a autonomia municipal. O ente superior somente poderá intervir em casos
extremos nos quais as autoridades locais não apresentam mais capacidade de
gerir o seu território, ou no caso da própria população, a despeito da
autoridade local, solicitar a ajuda.
5) A atual Constituição
Federal não positivou o principio de subsidiariedade, por isso, abriu espaço e
criou oportunidades para centralizar cada vez mais o estado federal. Há
necessidade alterar a constituição e adequá-la para que o poder local, a autonomia
dos entes subnacionais ressurja das cinzas da monarquia e da república
centralista. É preciso fazer renascer o espirito autonomista que animou muitos
brasileiros a lutarem contra o estado centralizado que foi instalado com a
Constituição de 1824. Muitas revoltas eclodiram após a outorga dessa
Constituição monárquica: a confederação do Equador, revoltas na Bahia, em Minas
Gerais, no Rio Grande do Sul. Todas estas buscavam um objetivo: autonomia
local. Não eram separatistas, como tentam dizer aqueles que não entendem e não
querem um federalismo de verdade!
6) Dentro dessa ideia de
autonomia e poder local, temos de repensar o papel das polícias. Os municípios
devem ter e manter as próprias polícias. É verdade que as policiais municipais
dificilmente terão condições de defender a população contra grupos criminosos
cada vez mais organizados. Por isso, devem existir também as policiais
estaduais. Essas policias devem atuar complementarmente. As estaduais, como
vemos no caso relatado no vídeo, por serem menores, podem formar uma força mais
avançada para combater a criminalidade com recursos e tecnologias que as
municipais dificilmente disporão. A atuação cooperativa e complementar,
sobretudo em inteligência, reforçará o poder das populações locais, estimulando
a autorresponsabilidade, e tornará cada uma das corporações muito mais efetiva.
O estado, seja em nível municipal ou estadual, se mostrará muito mais
competente.
7) A segurança pública
deve ser uma responsabilidade tanto da sociedade como do estado; cada ente
estatal, nacional ou subnacional, obviamente deverá deter níveis diferentes de
competências e de atuação. Quanto à sociedade, o cidadão ao ter de se envolver
em assuntos de segurança, o tornará mais consciente dos custos, dos benefícios,
das dificuldades e, sobretudo, da importância da educação e das pequenas ações
de cada cidadão. Isso despertará e desenvolverá a autonomia das comunidades
locais, reforçando a autonomia e poder local, assim como fará com que cada um
entenda o significado profundo de soberania popular.
8) Um dos princípios
regentes da atitude e da politica conservadora é a importância das comunidades
locais. E nestas comunidades, onde os laços afetivos se estreitam, que nasce o
respeito pela sociedade e pelos indivíduos, que desperta as pessoas para as
suas responsabilidades, incutindo as noções éticas de direitos que sempre devem
corresponder a deveres, nunca um existindo sem a contrapartida do outro.
O conservadorismo
privilegia as famílias, os pequenos grupos sociais, a vizinhança, as
comunidades pequenas e a convivência próxima. Apesar das pessoas não
perceberem, o fortalecimento dos laços comunitários contribui para que os
custos de gerenciar uma comunidade (vila, bairro, cidade, município) possam ser reduzidos, porquanto a própria comunidade se envolve na segurança e ajuda
no policiamento, principalmente contribuindo com as policias, valorizando os
policiais e suas famílias, observando comportamentos suspeitos e repassando
informações importantes para os órgãos de inteligência.
Conservadores autênticos,
portanto, não apreciam e se opõem a soluções tecnológicas que em vez de
fortalecer os laços comunitários os reduzem mais. Referimo-nos às "cidades
inteligentes", as quais, neste caso, deveriam receber a alcunha de cidades
estúpidas, pois trabalham para destruir um elemento fundamental para a
segurança pública, ao contrário do que prometem. Se considerarmos os altos
custos de aquisição e de manutenção dessas soluções que, sem dúvida, resolvem
os problemas financeiros de políticos que as contratam, perceberiamos que elas não valem o esforço.
É estranho observar pessoas e partidos que se apresentam como conservadores, mas
que não entendem que as tais “cidades inteligentes” se colocam contra um
principio fundamental do conservadorismo, além de nada solucionarem.
Resumindo: temos de trabalhar para implantar verdadeiramente, inclusive alterando a atual constituição, o federalismo pleno, a soberania popular, a mais ampla autonomia para os municípios e estados da federação, e maior participação popular na administração pública.
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